Enunciados de curiosos, palpiteiros, ex-lideranças estudantis e estudiosos ainda confundem juventude com o movimento estudantil, especificamente com aquele estereótipo emanado da década de 60.Tal estigma leva à caracterização dos jovens como naturalmente rebeldes, dados a experimentações incomensuráveis de sexo e entorpecentes. Onde quer que estejam reina o desregramento, a liberação total de tudo, muito anticapitalismo e pouca coisa útil para o mundo, senão este instante de interação e de aprendizado para a “maturidade”.
Passados os "anos rebeldes" ou "anos dourados" desse arquétipo, atropelada pelo "fim das utopias e ideologias” quando do advento do neoliberalismo, a geração a partir dos anos 90, também por responsabilidade de uma “falha de transmissão” dos "filhos de 68", seria estéril e umbigocêntrica.
Como automatismo, devido ao período democrático vivido pelo país, no qual o desafio é governar e não mais tramar o "assalto aos céus" ou perseguir oposicionistas à bala, os jovens não desiludidos, temerários nas relações com a política, supostamente manteriam vínculos partidários inócuos ou escusos, reproduzindo uma prática sem princípios ou objetivos. Enquanto se engalfinham por promoções, prestígio, soldo graúdo - argumentam os porta-vozes dessa ótica - jovens comuns perdem-se em condições materiais e culturais incipientes.
É de suma importância firmar opinião contra esse péssimo paradigma pelo qual se toma a atividade política juvenil hodierna.
Os tais “jovens reais” sempre existiram, mesmo na época em que as gerações anteriores criavam a Bossa Nova e o Tropicalismo, defendiam a soberania nacional sobre o petróleo, gozavam a revolução sexual, em que a "Lucy estava na nuvem de diamantes", combatiam a ditadura por liberdade e conquistavam eleições diretas para presidente. Cada geração cumpre seu papel e uma não se sobrepõe à outra em valor. As que passaram ajudaram o mundo a ser melhor como é hoje. E foi justamente na "esterilidade" da geração dos anos 90 para cá que o acúmulo das gerações anteriores se encontrou com essa “juventude real”.
Forjada ainda com muito caldo ideológico na década de enfrentamento com o neoliberalismo, que tornou a “juventude real" ainda mais tragicamente existente, que muitos jovens de vanguarda se uniram aos acadêmicos, às manifestações organizadas desses jovens reais (e não mais pequenos coletivos propagandistas, grêmios socialistas ou DCEs revolucionários) e criaram a noção de Políticas Públicas de Juventude e um movimento por elas.
Desde então, dezenas de pesquisas foram realizadas para que se pudesse conhecer não aquele modelo de mochilas e camiseta do Che Guevara, mas esses jovens dos sinais, favelas, assentamentos, da agricultura familiar, fábricas, bandas suburbanas, grupos de teatro amador, gangues, clínicas clandestinas de aborto, federações industriais, tráfico, orkut ou dos presídios. Ali começou a mutação da daquele referencial brotado de Woodstock, com pitadas de maoísmo ou trotskismo. Um mundo real precisava de respostas antenadas com as ondas democráticas. Para os que estavam na proa dessa história, não havia mais o movimento estudantil versus as crianças e adolescentes protegidas pelo ECA. Nascia o conceito contemporâneo de juventude.
Jovens gestores emergiram do meio estudantil, entre pactos, acordos, negociações e composições (é, isso havia antes do José Serra ser eleito presidente da UNE) para a experiência no Estado, com administração de recursos humanos, financeiros, influência governamental e status de autoridade pública.
A degeneração de alguns quadros a partir do exercício desta "política de gente grande" não é uma questão de ser jovem ou de estar ou não perto ou longe das rédeas (curtas ou longas) dos pais, haja vista que expoentes de gerações míticas do passado já incorreram em erros que colaboraram negativamente para a imagem da política. Então, não se trata de se estar em 1968 ou quarenta anos à frente. É um nó ético-moral que não se apresentou antes porque quem dava as cartas até muito recentemente eram os oficiais de alta patente das forças armadas. É um problema engendrado pela pobreza, geradora do "jeitinho brasileiro", de um lado, e pelo regime democrático incompleto e imperfeito que temos, com seu deformado jogo eleitoral e seu distorcido sistema político, de outro.
As políticas públicas de juventude são a causa nobre da atual geração, cuja missão é dar um projeto político à democracia brasileira.
Esse pocket, longe de intuir fundamentar “cientificamente” uma teoria geral da juventude, volta-se ao encorajamento da ação política, objetivando apontar esboços de uma estratégia da juventude para os nossos dias.
Belém, janeiro de 2009,
L.V.