28.2.09

Apresentação - As causas nobres da juventude: qual é mesmo o nosso papo?

Enunciados de curiosos, palpiteiros, ex-lideranças estudantis e estudiosos ainda confundem juventude com o movimento estudantil, especificamente com aquele estereótipo emanado da década de 60.



Tal estigma leva à caracterização dos jovens como naturalmente rebeldes, dados a experimentações incomensuráveis de sexo e entorpecentes. Onde quer que estejam reina o desregramento, a liberação total de tudo, muito anticapitalismo e pouca coisa útil para o mundo, senão este instante de interação e de aprendizado para a “maturidade”.

Passados os "anos rebeldes" ou "anos dourados" desse arquétipo, atropelada pelo "fim das utopias e ideologias” quando do advento do neoliberalismo, a geração a partir dos anos 90, também por responsabilidade de uma “falha de transmissão” dos "filhos de 68", seria estéril e umbigocêntrica.

Como automatismo, devido ao período democrático vivido pelo país, no qual o desafio é governar e não mais tramar o "assalto aos céus" ou perseguir oposicionistas à bala, os jovens não desiludidos, temerários nas relações com a política, supostamente manteriam vínculos partidários inócuos ou escusos, reproduzindo uma prática sem princípios ou objetivos. Enquanto se engalfinham por promoções, prestígio, soldo graúdo - argumentam os porta-vozes dessa ótica - jovens comuns perdem-se em condições materiais e culturais incipientes.

É de suma importância firmar opinião contra esse péssimo paradigma pelo qual se toma a atividade política juvenil hodierna.

Os tais “jovens reais” sempre existiram, mesmo na época em que as gerações anteriores criavam a Bossa Nova e o Tropicalismo, defendiam a soberania nacional sobre o petróleo, gozavam a revolução sexual, em que a "Lucy estava na nuvem de diamantes", combatiam a ditadura por liberdade e conquistavam eleições diretas para presidente. Cada geração cumpre seu papel e uma não se sobrepõe à outra em valor. As que passaram ajudaram o mundo a ser melhor como é hoje. E foi justamente na "esterilidade" da geração dos anos 90 para cá que o acúmulo das gerações anteriores se encontrou com essa “juventude real”.

Forjada ainda com muito caldo ideológico na década de enfrentamento com o neoliberalismo, que tornou a “juventude real" ainda mais tragicamente existente, que muitos jovens de vanguarda se uniram aos acadêmicos, às manifestações organizadas desses jovens reais (e não mais pequenos coletivos propagandistas, grêmios socialistas ou DCEs revolucionários) e criaram a noção de Políticas Públicas de Juventude e um movimento por elas.

Desde então, dezenas de pesquisas foram realizadas para que se pudesse conhecer não aquele modelo de mochilas e camiseta do Che Guevara, mas esses jovens dos sinais, favelas, assentamentos, da agricultura familiar, fábricas, bandas suburbanas, grupos de teatro amador, gangues, clínicas clandestinas de aborto, federações industriais, tráfico, orkut ou dos presídios. Ali começou a mutação da daquele referencial brotado de Woodstock, com pitadas de maoísmo ou trotskismo. Um mundo real precisava de respostas antenadas com as ondas democráticas. Para os que estavam na proa dessa história, não havia mais o movimento estudantil versus as crianças e adolescentes protegidas pelo ECA. Nascia o conceito contemporâneo de juventude.
Jovens gestores emergiram do meio estudantil, entre pactos, acordos, negociações e composições (é, isso havia antes do José Serra ser eleito presidente da UNE) para a experiência no Estado, com administração de recursos humanos, financeiros, influência governamental e status de autoridade pública.

A degeneração de alguns quadros a partir do exercício desta "política de gente grande" não é uma questão de ser jovem ou de estar ou não perto ou longe das rédeas (curtas ou longas) dos pais, haja vista que expoentes de gerações míticas do passado já incorreram em erros que colaboraram negativamente para a imagem da política. Então, não se trata de se estar em 1968 ou quarenta anos à frente. É um nó ético-moral que não se apresentou antes porque quem dava as cartas até muito recentemente eram os oficiais de alta patente das forças armadas. É um problema engendrado pela pobreza, geradora do "jeitinho brasileiro", de um lado, e pelo regime democrático incompleto e imperfeito que temos, com seu deformado jogo eleitoral e seu distorcido sistema político, de outro.

As políticas públicas de juventude são a causa nobre da atual geração, cuja missão é dar um projeto político à democracia brasileira.

Esse pocket, longe de intuir fundamentar “cientificamente” uma teoria geral da juventude, volta-se ao encorajamento da ação política, objetivando apontar esboços de uma estratégia da juventude para os nossos dias.


Belém, janeiro de 2009,


L.V.

Concepções de juventude: diálogos com a esquerda

Nos anos 90, a reflexão sobre a juventude ganhou força para além de citá-la como participante das jacqueries francesas, nessa ou naquela rebelião do Período Regencial, Cruzadas ou para confirmar o protótipo do jovem insurreto criada pelo legendário maio de 68.



No entre meio deste processo, surgiram teses como a de que ela é “estado de espírito”, o que torna um idoso saudável e atualizado igual a um garoto de 20 e poucos anos, tanto psicologicamente, como nas relações de sociabilidade que estabelece ou quanto à forma física e perspectivas de vida, nível de experimentação e contradições apresentadas pela existência.



Houve também a que sugeriu ser a juventude uma fase à espera da incorporação ao processo produtivo, como se o trabalho fosse a redenção do processo formativo da personalidade ou da transversalidade de opressões singularizadas pela idade.



Entre a esquerda comunista, onde a reflexão se focava no “papel revolucionário”, a teorização era voltada à reprodução do partido, a cooptar o ímpeto dos jovens para a ação política e prepará-los como o futuro da sociedade pós-capitalista, o que asseguraria a continuidade da construção do comunismo.



Dogmática em larga medida, essa visão propugna que a intervenção política entre a juventude é tática para o socialismo, o que estabelece uma relação utilitária para proteger o partido do envelhecimento e limitá-la a reforçar o movimento da única classe consequentemente revolucionária, o proletariado, segundo o marxismo ortodoxo.



Assim, estar numa organização social juvenil serve para associá-la à luta que é essencialmente dos assalariados, para amplificar um discurso de minoria ideológica na sociedade, para a autoconstrução e para ser um estágio de futuros dirigentes partidários, cujo aprendizado desses “desocupados com disposição e entusiasmo” ocorre tornando-os agitadores de comícios, pintores de faixas ou ajudantes de alguma eleição de sindicato.



Um outro ponto de vista tentou desenvolver a crítica a essa concepção, afirmando que o protagonismo juvenil consistiria na formação da juventude enquanto força social sem intermediários para uma revolução social, sugerindo a inversão da política comunista clássica, onde esta entraria não mais como tática e sim como estratégica. Contudo, invariavelmente desaguou no abstrato ao afirmar que incidir sobre os jovens não seria mais um meio e sim um fim, onde seus espaços e lutas não seriam mais voltados aos “pais operários”, mas a eles mesmos. Generalidades, como é simples constatar, embora dotada de um passo à frente.



Em ambas é nítida a presença do culto a uma inata qualidade rebelde do jovem, se não como verdade, então como farsa assídua na propaganda.



De matriz liberal, embora corriqueira na esquerda, com ênfase nos órfãos que renegaram a filosofia do pai russo, brotou a noção do protagonismo juvenil caracterizado como voluntariado, ou seja, o jovem engajado para ajudar a amenizar conflitos e desigualdades sociais. Ser jovem não mais significaria um “problema”, seja pela experimentação de drogas, pela iniciação da vida sexual, pelas manifestações diversas de sexualidade, pelo recrutamento para as lides da criminalidade ou pela rebeldia comportamental. Essas questões resolver-se-iam pelo engajamento solidário ou por iniciativas que o ocupasse.



Para essa matriz, o protagonismo juvenil se esgota aí. Políticas públicas são as elucubradas por estudiosos e especialistas. Canais de diálogo são grandes salões de pesquisa qualitativa, onde sábios dão palpites acadêmicos esperando pelos comentaristas da sociedade civil.

As concepções predominantes e o “governar”

As questões mais elucidativas acerca das concepções predominantes de juventude podem ser medidas através da relação que estabelecem quando da conquista de espaços na institucionalidade legislativa ou executiva.



A que defende o protagonismo juvenil via voluntariado pode assumir aspecto progressivo quando existe um governo ou corpo parlamentar que desenvolve políticas públicas e promove direitos da juventude. Isso porque reúne gama significativa de intelectuais que se debruçam sobre o assunto e acumulam experiências importantes na hora de expor sua capacidade propositiva para a agenda do executivo e do legislativo, haja vista que o fato de optarem por saídas individuais como solução para os dilemas juvenis não implica na ausência de vontade política de que haja ação consistente do poder público para responder às demandas da juventude.



Quanto às concepções de juventude tática ou estratégica, apesar de relativamente bem delimitadas teoricamente, terminam por erguerem relevantes pontos de contato quando se fazem história e correspondem a algumas hipóteses nas suas aplicações, quase sempre estabelecendo uma relação utilitária com o Estado.




3.1 Hipótese esquerdista



Com uma base social geralmente composta por uma vanguarda minúscula de estudantes radicais de classe média1 e, logo, concentrando sua atividade quase exclusivamente no movimento estudantil, essa corrente, além de suas parcas chances de obter qualquer sucesso eleitoral, passa ao largo da agenda do poder executivo no que tange às políticas públicas de juventude, até porque despreza o uso inteligente da democracia liberal, seja em favor dos jovens ou dos trabalhadores.


Relaciona-se com o parlamento sem grandes preocupações com os temas juvenis a não ser quando é o caso de posicionar deputados e vereadores contra ou a favor de alguma iniciativa que envolva estudantes.



Mecanicistas, dividem os jovens entre os proletários e os burgueses, embora pouquíssimos vínculos sociais tenha com os primeiros.



3.2 Hipótese burocrática



Resulta numa confusão de espaços e identidades. Seus aplicadores imaginam os parlamentares como meros porta-vozes da “opinião” dos jovens e como financiadores das lutas da vanguarda estudantil, ao mesmo tempo em que buscam um diálogo quase sempre não correspondido com outras manifestações organizadas da juventude, sempre se perguntando o porquê dessas não se enamorarem a seu programa “tão avançado”.


No poder executivo, descambam para o total desencontro político com suas próprias identidades. Aderem, apesar da autoproclamação como tais, ao mais vil anti-marxismo ao suporem os órgãos de juventude não como espaços de gestão de políticas públicas e sim como espaços “do movimento” no governo.


Entendem os conselhos de juventude como uma espécie de “sovietes jovens”, voltados não para a gestão, controle social, fiscalização e elaboração das políticas e sim como instrumentos de mobilização social, idílio extraído de alguma leitura caricata dos acontecimentos de maio de 1968.


Quando deparados com os limites da institucionalidade, oscilam entre defender o governo, sendo funcionários do mesmo, ou defender o que acreditam ser os interesses da juventude em choque com o Estado. Terminam se comportando como representante do movimento no poder público, sem qualquer mandato para tal, e esterilizam as conquistas parciais juvenis através do exercício do governo. Pensam os órgãos de juventude como possibilidade para “construir o movimento”: camisas, passagens, telefones, cooptações fisiológicas de ativistas e organizações etc. Priorizam o uso do Estado para formar seus militantes em detrimento de lançar mão da máquina administrativa em favor da solução dos dilemas da condição juvenil.



À frente ou se integrando na construção de canais de diálogo e participação, os concebem pura e simplesmente como meios de mobilização da juventude para sustentação de algum governo tido por “revolucionário” ou de pressão para fazer avançar outro governo tomado por “reformista”.



Essas duas concepções atrasadas trouxeram à tona a tensão entre a nova síntese dos anos 90 e o "antigo regime" do modus operandi da concepção de juventude, que insistia em ser a luta pautada na propaganda revolucionária abstrata e metodologicamente sustentada em slogans. Esse "antigo regime" cumpre um papel reacionário na medida em que, ao invés de incentivar o primeiro voto ou a participação/interlocução com as instituições, sob o disfarce "revolucionário" de uma "desobediência civil" vazia e anacrônica, estimula a descrença com a política na parcela mais consciente.

Uma concepção de juventude para a revolução democrática

Juventude é uma fase mais ou menos determinada etariamente da gênese da personalidade, da formação da opinião política, gosto artístico, visões religiosas. É a intermédia de duas etapas do desenvolvimento individual - a heteronomia e a autonomia - consideradas tanto em nível psicossocial (opiniões formadas, gostos apurados, determinações emocionais e profissionais), como econômico (dependência, semi-dependência e independência financeira).

Mas, juventude também é um grupo social transversal a todos os setores de múltiplas identidades e opressões econômicas, étnicas, culturais, de orientação sexual, de gênero e de condição física. Em cada segmento conformam-se necessidades específicas que se somam às necessidades gerais da condição juvenil.

Por isso, a juventude é o segmento mais vulnerável e sensível às mazelas engendradas pelo capitalismo, foco condensado de tantas contradições e, por conseqüência, demandas.


É um campo de disputa acirrado, pois nela está contido - em potencial - os padrões societários vindouros. Corresponde, enquanto força social, a 30% da população planetária, concentradora de contradições explosivas, cujo processo especial de manifestação determina um potencial incomum de ir à ação política. É então uma força social sui generis para a transformação progressista, assim como o é para a manutenção do status quo, para regressões sócio-políticas, para a renovação de sacerdotes e praticantes do credo de igrejas, assim como para inculcar marcas e consolidar clientes. Não é à toa que a identidade juvenil e sua práxis política, social e cultural, são disputadas pelo mercado, pela direita, pela esquerda e pela religião.

12.2.09

Fotos do lançamento



Com Elizeu Chagas, Secretário Estadual Adjunto de Juventude do PT (2005-2008) na festa da "diretoria" depois do lançamento; com o Grande Amor, Samara Carvalho, um beijo para comemorar, sob o som de Adílson Alcantara; com meu companheiro de "armas" Angelo Madson, camarada das velhas e boas Juventude Guevarista e Vanguarda Estudantil Revolucionária. Hoje ele comanda a ABRACO paraense e se debruça sobre a Revolução Cabana.



Com a tia Ima Vieira e Peter Toledo, diretora do Museu Goeldi e presidente do IDESP (Instituto de Desenvolvimento do Estado do Pará), respectivamente; com meu camarada de lutas e sonhos Raí Moraes, vereador jovem de Abaetetuba; com as queridas amigas Luanna e Verena, parceiras da minha trajetória nos movimentos juvenis desde que "os bichos falam".



Com Charles Alcantara, grande amigo, ex-Chefe da Casa Civil e presidente do SindTAF; com Fábio Assunçào, meu lugar-tenente na Assessoria de Juventude da Casa Civil; com Fausto, comandante-em-chefe da juventude da FETRAF paraense; com Patrick Paraense, uma amizade histórica, ex-coordenador de juventude do governo do estado.



Com Bruno Carvalho, secretário de formação política da juventude do PSDB; com Hellany Torres, da executiva municipal da JPMDB e Carolina Araújo, grande amiga. A última foto dispensa comentários.




Na posse de Igor Normando na presidência da JPMDB-PA, rodeado por ele, entregando o livro para o comandante local do partido, deputado federal Jáder Barbalho.